O Brasil é extremamente contraditório em matéria de moralidade. Na última semana o país foi sacudido por uma verdadeira onda de protestos contra as declarações do deputado ultra-direitista Jair Bolsonaro no programa CQC, a respeito de uniões homosexuais e inter-raciais. O parlamentar é alvo de diversas representações no Comitê de Ética da Câmara dos Deputados e no Ministério Público por suas posturas consideradas racistas e homofóbicas. O caso ganhou grande repercussão na imprensa, mobilizando importantes setores da sociedade civil, inclusive a OAB.

Porém, a mídia e a sociedade civil não agiram com o mesmo rigor diante da humilhante demissão do chefe regional do Instituto Ambiental do Paraná, Valter Pagliosa, defenestrado do cargo pelo fato de ter atuado como ator em um filme erótico. A sua atividade profissional foi a principal causa da expulsão. E tudo por ter estrelado um filme amador que sequer tinha cenas de sexo explícito!

O que causa perplexidade e indignação é que Valter Pagliosa não matou, não roubou, não extorquiu, não fraudou licitações, não praticou improbidade administrativa – delitos muito comuns entre nossos políticos. Apenas e tão-somente foi apontado por um senador brutamonte como “ator pornô”, condição que o desqualificaria para lutar pelo nosso meio ambiente. E o Governo foi extremamente hipócrita por demiti-lo sob o pífio argumento de quebra de confiança por ter prestado informações incompletas sobre sua vida pessoal. A exoneração de servidor a bem do serviço público é pena estigmatizante, reservada a funcionários corruptos e relapsos.

A saída de Pagliosa é a mais contundente demonstração de que a intolerância está presente em muitos setores da Administração Pública, embora tenhamos uma Constituição progressista e democrática. O silêncio da imprensa e de entidades de defesa da cidadania – inclusive as representativas dos artistas – reforça a tese de que esse gênero cinematográfico ainda é vítima de preconceito dos setores mais conservadores da nossa sociedade. O ator reagiu ao golpe com muita altivez e orgulho, recusando-se a renegar o seu passado para ocupar a função. Não mostrou nenhum arrependimento por ter trabalhado em ”A Outra Metade”, lançado em 2006, quando tinha 19 anos. Hojé é evangélico e pai de família.

Ora, filmes eróticos são encontrados facilmente nas bancas de revistas de todo o país, em lojas de departamento, na internet, TVs por assinatura e nos videoclubes. Sua venda e locação são absolutamente legais, desde que o comprador não seja menor de idade. Em qualquer shopping center é possível comprar roupas eróticas para atiçar o imaginário dos parceiros, cujas peças são expostas sensualmente nas vitrines. A industria erótica ocupa um importante espaço no mercado brasileiro.

Atrizes pornôs já foram até eleitas para o parlamento, a exemplo da deputada italiana Cicciolina. No Brasil, a deputada federal Agnes Marchioni protagonizou vários ensaios fotográficos estampando sua bela nudez, sem que isso provocasse a cassação de seu mandato. O mesmo aconteceu com a apresentadora Xuxa, que terminou embaixadora da UNICEF. As fotos artísticas e os vídeos em nada afetaram a trajetória profissional dessas pessoas, a ponto de alijá-las da participação política, direito fundamental assegurado a todos os cidadãos.

Sem exagerar, acho que os filmes eróticos exercem uma função social interessante. Eles estão em todos os motéis com o objetivo de apimentar as noites de amor. Também são comprados secretamente por homens e mulheres bem sucedidos para combater o tédio conjugal ou preencher as horas de solidão. A atuação das atrizes tem até mesmo inspirado o savoir-faire de muitas mulheres em matéria de sexo.

Desde que a produção desses filmes respeite rigorosamente as leis vigentes no país, trata-se atividade profissional lícita que deve ser respeitada por todos, sobretudo pelo Estado. Alijar um ator do serviço público brasileiro pelo simples fato de ter atuado em filme erótico é, no mínimo, desrespeito ao pluralismo, ao princípio da não discriminação e à liberdade de trabalho consagrada na Constituição de 1988. Seria muito interessante se esse episódio tivesse a mesma repercussão que as desastradas declarações de Bolsonaro ao responder à pergunta feita pela cantora Preta Gil.

Texto: George Sarmento

Foto: Jornal de Londrina